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A Mentalidade da Avicultura Nacional |
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Por Pedro Ramalho Como se sabe em Portugal, temos condições muito boas para manter aves exóticas, em termos de psitacideos podemos manter no exterior, em praticamente todo o território nacional, a maioria dos psitacideos que aparecem no mercado nacional. Assim temos, em comparação com outros países europeus, vantagens climatéricas, mas também temos duas desvantagens, a primeira é que somos um pais pequeno e periférico e consequentemente temos falta de rações de qualidade para alguns tipos de aves (como por exemplo insectívoros) a preços baixos, o outro problema é a falta de cultura, não de cultura geral ( embora esta também não abunde), mas sim falta de conhecimentos básicos a nível de criação de aves, é acima de tudo este o principal motivo porque o nível da avicultura portuguesa é baixo. Ao irmos ao estrangeiro e vermos as aves ai mantidas, não nos podemos deixar de perguntar porque é que continuamos sempre na mesma. Eu já crio aves à 11 anos a sério, e desde sempre em minha casa houve passarinhos. Posso dizer que nestes onze anos, se andámos alguma coisa para a frente foi em canários e em exóticos domésticos, mesmo assim pouco. Em psitacideos, e aqui eu falo sobre a minha zona (Estremadura), se é verdade que apareceram e se foram estabelecendo algumas espécies outras houve que quase desapareceram. Este artigo pretende ser polémico, e era útil que ao lerem-no os criadores, quer concordem quer não com o seu conteúdo e com as opiniões aqui expressas me enviem os seus pontos de vista e a sua opinião do que é que vai mal na avicultura Portuguesa para serem incluídas nesta página no futuro. A falta de informação em Portugal é um mal crónico, a literatura escrita em português é pouca e nalguns casos antiquada, não há virtualmente revistas dedicadas a criação de aves exóticas em Português, a "Pássaros" era uma excepção mas tem falta de material, as revistas originais eram muito melhores do que as que foram lançadas recentemente. Esta e uma revista brasileira a "Aves e Criadouros", são penso eu as únicas revistas comercias em Portugal, escritas em Português, e incrivelmente ambas se debatem com a falta de assinantes, o que me leva a concluir que das duas uma ou os criadores já sabem tudo o que há para saber da criação de aves (ou julgam que sabem), ou então não sabem nem querem saber. Para além destas revistas alguns clubes lançam uma revista própria, e aqui a situação é o reverso da medalha, os sócios até estão interessados em lê-la não estão é interessados em escrever para ela, logo o material publicado é muitas vezes o que se encontra nos livros, às vezes é tirado palavra por palavra destes mesmos livros, o que obviamente retira todo o interesse á revista . Portanto temos dois males nesta terra à beira mar plantada, damos mais valor à conversa do vizinho do que à informação publicada (a este propósito recordo que uma dada vez um "criador" das Caldas da Rainha disse numa conversa que estávamos a ter com vários outros criadores que não acreditava no que eu lhe estava a dizer porque um amigo lhe havia dito o contrário e ele NÃO ACREDITAVA NO QUE VINHA NOS LIVROS, actualmente deixou de criar e passou a vender e a "ensinar" os seus clientes como criar tudo e mais alguma coisa), depois temos aquela maravilhosa tendência de não dizer nada a ninguém. Felizmente que esta doença é mais frequente entre os criadores da velha guarda do que entre a nova, mas mesmo nos criadores mais novos isto acontece, muitos criadores têm de uma forma ou de outra, a tendência para ver nos colegas criadores concorrentes, que podem de alguma forma fazer-lhes concorrência, e evitam por isso ajudar, e é claro alguns criadores mais antigos (em anos de criação de aves, não de vida) não ajudam pela simples razão de que não sabem, e não o querem admitir. Um amigo meu criador de psitacideos das Caldas nunca diz a morada de outros criadores, e mesmo quando diz tem sempre que dizer "se lá fores a casa dele ele não te deve atender porque não te conhece" o que até hoje nunca me aconteceu, depois há aquele que diz sempre que as aves são muito difíceis de criar porque ele não as conseguiu criar, aqui à uns anos quando eu comecei ele dizia que era muito difícil de criar Forpus e Neophemas, mas logo a seguir a eu ter criado comprou alguns casais e é claro voltou a não conseguir, e continuou a dizer que eram difíceis de criar e mais grave ainda nunca diz a ninguém que havia um criador a 300 metros que os criava. Por outro lado um dos melhores criadores nacionais de Agapornis e Roselas é extremamente informativo sobre o tratamento que dá às suas aves e sem sombra de dúvida é um dos criadores em Portugal que melhor cuida das suas aves, mas para vender uma ave a um criador que ele veja que percebe do assunto é um bico de obra, numa ocasião em que fui a casa dela insisti para ele me vender um determinado Roseicolli juvenil do qual ele tinha uns 20 iguais na altura, ele disse-me que não e que ainda tinha que escolher e que em janeiro eu passasse por lá. Ora estes 20 roseicollis foram vendidos na semana seguinte a um revendedor onde eu fui comprá-los pagando 5 cts por cada um, quando o criador em questão queria 7 cts cada e não mos quis vender e passada uma semana foi vendê-los a 3 cts cada. Depois disso comecei a lá mandar um amigo meu que não percebe nada de aves para comprar . Ia lá ao sábado via o que me interessava perguntava se estavam a venda, e apesar das desculpas variarem a resposta era sempre a mesma NÃO, depois mandava lá o meu amigo comprar as aves. A falta de cultura também se reflecte noutra situação, assim como no verão toda a gente vai para o Algarve, e mais giro ainda vão todos pela mesma estrada e a mesma hora, também a maioria dos criadores criam a mesma coisa, na mesma zona e ao mesmo tempo, por exemplo na minha zona existem vários pólos principais de criação a pouca distância uns dos outros mas se no Cadaval se encontra principalmente exóticos domésticos e Agapornis, em Peniche basicamente só há canários e alguns psitacideos de médio porte, nas Caldas a tendência é para psitacideos de médio porte, e grande porte sendo os criadores de canários a sério poucos, enquanto que em termos de exóticos é um deserto, com expeção de alguns criadores de diamantes de Gould e de Bengalins para dar apoio. A razão para isto é facil de explicar, no Cadaval os dois criadores principais criam principalmente Agapornis e Mandarins, logo toda a gente cria Agapornis e Mandarins, em Peniche o mesmo se passa só que desta vez a opção foi para os canários, a situação nas Caldas desenvolveu-se porque de um núcleo inicial de criadores à 20 anos atrás dos quais apenas um criava psitacideos, os outros eram Canaricultores, só o criador de psitacideos atingiu sucesso a longo prazo e só ele evoluiu ao longo dos anos, no entanto e nos últimos tempos devido à influência de Peniche mas também da Zona de Alcobaça os criadores das Caldas começaram outra vez a criar canários. Não se pense que este fenómeno é exclusivo de Portugal , pelo contrário ele verifica-se em todo o lado e é obviamente natural, quando um criador está a começar é normal ele começar com o tipo de aves criadas na sua zona. No entanto, e tomando a Bélgica como exemplo, numa visita efectuada em junho de 2000 tive ocasião de ver em 3 dias 24 criadores de Ringnecks, embora todos eles criassem principalmente Ringnecks todos criavam outro tipo de aves desde Roselas a Poecephalus, e vários criadores tinham nas colecções outros membros do Género Psitacula. Ora tal é relevante porque estes criadores tomaram a opção de criar uma mesma espécie principal , mas em relação à(s) espécie(s) secundária(s), escolheram espécies muito diferentes uns dos outros. E mais, na mesma área a diversificação é muito grande em termos de espécies criadas o que torna o mercado mais interessante uma vez que os nichos de mercado estão ocupados mais homogeneamente. Portanto, é conveniente que os criadores após a primeira vaga de compras pensem bem no que querem fazer, criar algo que mais ninguém cria, tem vantagens mas as desvantagens não são pequenas. A especialização num grupo relativamente pequeno de aves, sejam raças de canários ou a família dos Colibris, torna mais fácil e económico a gestão do plantel, em principio todos devem ter as mesma necessidades de espaço e de dieta, provavelmente são capazes de criar as crias uns dos outros, e como com o aumento do número de casais da mesma espécie vem um aumento da eficiência reprodutiva e uma maior resistência a desastres, como fugas e mortes, quantos anos perdem aqueles criadores que só tem um casal por espécie a acertar o casal e a conseguir obter resultados e depois uma das aves foge ou morre e tem que se começar tudo de novo, e mais quantas vezes um criador se queixa que um determinado casal não presta, seja por não encher bem, ou por depenar as crias etc.. e o criador tem que tentar resolver a situação? Se em vez de um casal tiver 20, a solução mais simples para o problema é mostrar ao casal a porta da rua. A desvantagem principal é que se o mercado desvaloriza, e a procura do tipo de aves que se criam diminui não há outra espécie que a possa substituir. Para evitar isso há várias tácticas, mas também a situação é diferente para os vários tipos de aves, nos canários, mandarins, bengalins e periquitos ondulados standard, o caminho para a competitividade está não na criação de muitas aves ou na criação a mão, ou mesmo em apostar em novas mutações, mas sim em conseguir ganhar exposições, primeiro as locais depois as nacionais e o por fim o Mundial, e não interessa que por exemplo em Portugal não haja compradores para Bengalins campeões, se conseguir resultados a nível mundial consistentes todos os anos, não precisa arranjar compradores em Portugal porque os estrangeiros virão cá comprá-los. Nos psitacideos os caminhos são muitos desde criar aves a mão para o mercado de animais de estimação, a criar mutações, ou então a tentar criar alguns dos mais raros e difíceis. Um problema que ocorre muito frequentemente é a mortalidade de aves importadas, ora nada mais natural morrerem as importadas, quando se sabe em que condições miseráveis a maioria dos importadores as trás para Portugal, mas agora eu pergunto porque esperar que os importadores as tragam, porque não ir buscá-las à Bélgica e á Holanda? A maioria dos leitores deve estar a achar que eu sou doido, mas na realidade é uma questão de compras e contas: ir durante 4 dias à Bélgica e Holanda fica entre 40-70 cts, dependendo da época, do carro ser alugado ou não, e do nível do hotel. Ora vamos supor que o leitor é um criador médio de psitacideos e quer comprar este ano 3 casais de roselas penant (30cts o casal), 2 casais de Kakarikis amarelos (20 cts o casal), 2 casais de papagaios cinzentos sexados (80 cts o casal), e um casal de ringnecks adulto que em Portugal custará qualquer coisa como 30 cts o casal. Claro está que estes preços não são exactos, dependem do sitio do Pais e dos contactos que tiver. Actualmente na Bélgica um casal de Penant custa 15 cts ou menos, Kakarikis ficam por 10 cts o casal os papagaios por 60 cts o casal, e o casal de Ringnecks amarelos adultos ficará pelos 12 cts, ora isso quer dizer que em Portugal para comprarmos tudo gastaríamos 320 cts, na Bélgica para comprar o mesmo número de aves 197 cts, ou seja a diferença dá para pagar a viagem e ainda sobra para ir ver as montras. Este artigo terá brevemente uma continuação, qualquer comentário, ou duvida serão bem vindos e podem ser enviados por email para Pedro Ramalho. © Copyright, Pedro Ramalho 2001 |