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Uso de antibióticos e outras medicações |
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Por Ricardo Pereira Foi com bastante agrado que li na última edição da Revista Ornitofila da AAP (muito boa como vem sendo hábito!!) o artigo do Sr. Victor Carrilho sobre o correcto uso de agentes anti-infecciosos e antibióticos. Embora seja um novato nestas andanças, visto só criar aves há cerca de 4 anos, parece-me que faz grande falta à ornitofilia nacional esta visão sobre o uso de medicamentos, para mais vinda da parte de um colega tal como eu criador de exóticos e cuja experiência é muito mais vasta que a minha. Mesmo assim, achei que seria uma boa oportunidade para deixar alguns dados e questões no seguimento desta matéria. Obviamente que não se pode pedir a um ornitófilo amador (como quase todos nós o somos) que este adquira conhecimentos técnicos profundos de veterinária. Digo isto no sentido de reconhecer os ciclos de vida e processos metabólicos dos agentes patogénicos e seus hospedeiros, pois é nesse conhecimento que se baseia a actuação dos diversos medicamentos. Felizmente (ou talvez não…) que no nosso pais podemos adquirir uma vasta gama de antibióticos, desparasitantes, suplementos e produtos afins, tão simplesmente como compramos um saco de comida para as nossas aves. O resultado disso é que muitas das vezes acabamos por agir baseados na experiência própria pessoal sem saber o como ou porquê, ou pedir conselhos a pessoas com menos conhecimentos que muitas vezes nas lojas nos pretendem vender um produto que também não têm a certeza para que serve… Poucos serão aqueles que recorrem com alguma regularidade (ou alguma vez…) a exames coprológicos ou necrópsias ( as autópsias são feitas em humanos) de aves mortas para determinar quais os agentes a combater. Muitos dirão, e adiante-se que com toda a razão, que a falta de veterinários especializados em aves, sobretudo de pequeno porte, torna este processo pouco acessível à maioria. Certamente que sim, recordo-me quando adquiri o meu primeiro casal de diamantes Gould, numa altura em que pouco sabia sobre aves, e um deles adoeceu o ter levado ao veterinário para que este me informasse que "a sua ave tem uma diarreia e os exames levam uns 3 dias…" Claro que passado esse período a ave em causa tinha muito poucas necessidades de tratamento, visto ter morrido no dia seguinte!! No referido artigo são colocadas diversas questões que para alguns dos ornitófilos poderão passar despercebidas (até porque é um daqueles artigos a que nem todos darão a devida atenção e mérito, visto não se referir a verdadeiras técnicas e truques de criação…), mas é precisamente sobre essas questões que gostaria de fazer alguns comentários, nomeadamente a 4 aspectos: os efeitos secundários; a dosagem da medicação; identificação dos agentes patogénicos; e, finalmente, os "Cocktails" de medicamentos, como tão bem foram apelidados. O primeiro ponto refere-se aos efeitos secundários citados logo no titulo do artigo. São, na verdade, diversos e bastante mais abrangentes que os que foram apontados, mas o facto é que se aceita sempre que os efeitos benéficos superam sempre os prejudiciais, pelo que não se deve ter medo de usar medicamentos QUANDO necessário. Também os agentes infecciosos produzem substâncias tóxicas ao bom funcionamento do organismo. É com bastante tristeza que conforme me venho envolvendo mais nestas lides ornitófilas, deparo frequentemente com situações incoerentes no uso de suplementação e medicação como a solução para dietas incorrectas ou alojamentos deficientes. Uma história que me marcou, e que recordo sempre como exemplo cada vez que ouço falar em doenças e infecções, ocorreu há cerca de um ano quando uma pessoa me contactou porque o seu casal de diamantes-Gould nunca chocava os ovos. Tinha-lhe sido dito que poderia ser uma infecção bacteriana. Como não gosto de dar "palpites" acabei por ir a casa do senhor onde lá estavam as duas aves numa gaiola, por sinal bastante espaçosa (pelo menos 2m). Durante a conversa perguntei ao senhor há quanto tempo lhes havia retirado o ninho (estávamos por alturas de Março) ao que ele me respondeu "mas eles precisam de ninho para pôr os ovos??" O que se passava era algo tão simples como uma fêmea que seguia o seu ciclo reprodutivo normal naquela altura do ano mas, como não lhes havia sido dado um ninho, as aves não recebiam todos os estimulos necessários para o completar e os ovos eram postos no chão num canto da gaiola… Claro que um tratamento de estreptomicina ou cloranfenicol resolveria esta grave infecção!! Sobre outro ponto ( e aqui se o Sr. Victor Carrilho me permite a sugestão, deveria ter escrito a sua afirmação em letras grandes a negrito!!) a dosagem e duração dos tratamentos não vem indicada nos medicamentos apenas para compôr a embalagem. E desculpem-me aqueles que se julgam demasiado entendidos para aceitar ideias de principiantes, mas NÃO há qualquer benefício para as aves em fazer tratamentos com antibióticos em menor dosagem. Se os resultados que obtiveram com esse método (e quantas vezes me recomendaram o mesmo…) foram aceitáveis foi porque nunca era necessário usarem o antibiótico à partida! Suspeito que essa ideia advém do facto de por vezes algumas substâncias activas poderem ser administradas em diferentes dosagens consoante o agente em causa. A discussão sobre o uso de antibióticos e quimioprofilaxia em aves está envolta numa grande discussão à qual os leitores eventualmente ligados à avicultura industrial (como é o meu caso), estarão mais ou menos atentos. Não façamos das nossas aves galinhas ou outra qualquer espécie industrial sujeitas a programas de controlo ambiental, suplementações constantes de aminoácidos A, B ou C, vitaminas A, B, C, D, E, K,…, X,Y, Z, medicações profiláticas que exigem a administração subsequente de compostos para atenuar os efeitos da medicação e ainda de outros complexos para reduzir isto ou aumentar aquilo… Um exemplo prático com números, numa exploração de aves de caça onde trabalhei era prática corrente o uso de antibióticos e coccidiostáticos quase desde a eclosão das aves, mesmo assim as mortalidades atingiam valores superiores a 35%. Na época seguinte conseguiu-se adoptar um sistema de funcionamento que aboliu quase por inteiro esta prática e isso resultou numa redução de 18% da mortalidade (aliada a outros factores de maneio), e não medidas em 200 ou 300 aves (produção extraordinária ao nosso nível de amadores!!), mas sim para uma produção anual actual de cerca de 10.000 aves. Não quero entrar nesta área visto que cada um terá o direito à sua opinião e método próprios, mas julgo que todos nós temos um prazer especial em criar as nossas aves e mantê-las saudáveis, e isso deve ser feito do modo mais natural possível. Isto leva-me ao único ponto em que não concordo totalmente com o que foi escrito no artigo referido. Não porque não tenha razão ao afirmar que os tratamentos devem ser feitos depois de identificada o patogene alvo responsável pelo quadro sintomatológico da ave, mas porque a determinação desse agente é muito difícil… Muitas vezes doenças diferentes têm sintomas semelhantes à partida que só se distinguem tarde demais, geralmente por necrópsia… O que se pode (deve) pedir (exigir) é que se pense bem no uso de antibióticos como preventivos quando a sua finalidade é essencialmente curativa. Isto será tolerado quando mediante análises clínicas às fezes que comprovem e identifiquem quais os agentes a eliminar. Aponto dois exemplos de que se fala muito em prevenir: a salmonelose (Salmonella gallinarum, S. pullorum, S. typhi murium) e colibacilose (E. coli, Bacterium coli), e os parasitas gastro-intestinais (incluindo os protozoários) (Scholtyssek,1970). Uma análise a estes agentes é simples, requer uma colheita de fezes frescas debaixo de um poleiro e a sua entrega num veterinário ( a maioria pode fazer estas análises ou enviá-las ao laboratório), custa pouco mais que os medicamentos que se usam na prevenção e, mediante os resultados, podemos actuar com muito mais eficácia. Caso não seja necessário o tratamento, poupamos às nossas aves uma medicação e os seus efeitos secundários. Deixo aqui a referência dos principais agentes responsáveis por doenças em aves, (Adaptado de Manetti, 1989) Doenças protozoárias 45% Coccidiose 35% Tricomaniase 9% Histomaniase 1% Infecção por vermes 25% Capilariose 6% Ascaridiose 4% Heterakis 4% Infecções bacterianas 20% Colibacilose 10% Micoplasmose 7% Salmonelose 2% Outras 1% Doenças virais 9,7% Doenças por fungos 0,3% Aspergiliose 0,2% Da análise desta tabela se compreende que enquanto centramos as nossas atenções em agentes bacterianos, na verdade os grandes causadores de doenças em espécies avícolas são protozoários. E que se deixe claro que, ao contrário do que muitas vezes se afirma, um antibiótico raramente actua sobre coccídeos (Eimeria sp.; Isospora sp.) (entre outros). Só mais uma chamada de atenção porque a susceptibilidade das diversas espécies a determinados agentes não é a mesma. Assim no caso dos fringilídeos (especialmente nativos) o grande problema sanitário é a coccidiose e as micoses (infecções por fungos), nos diamantes a tricomaniase e acariose interna, nos psitacídeos os parasitas gastro-intestinais e algumas doenças virais… Cada um terá de adaptar o método recomendado às suas espécies, alguma das tabelas que surgem em diversas gamas de produtos como recomendações para periodos de descanso, muda, criação e outros têm sempre por detrás a intenção de vender produtos. Quantos programas de medicação em humanos (ou mesmo avicultura industrial, mais exigente e avançada) envolvem 4 ou 5 semanas de tratamento com 10 produtos diferentes praticamente todos os dias?? Muitos deles com toxicidade considerável e interacções pouco desejáveis?? Por fim não poderia deixar passar a referência aos "Cocktails" de medicamentos. Distinguindo para já um tipo dentro desses "Cocktails"(e perdoem-me a insistência no anglicismo), mas este estruturado e potenciado da melhor maneira possível; são os antibióticos designados de largo espectro. Ora muito se fala de largo espectro, mas o que vem a ser isso?! Tal como as aves são diferentes entre si também as bactérias o são. Em termos patológicos faz-se uma distinção sobretudo a nível de bactérias Gram positivas e negativas. Isto tem a ver com o modo como reagem quando sujeitas a uma técnica de coloração chamada o método de Gram, que aumenta a sua visibilidade ao microscópio. Embora não tenha verdadeiro interesse para o assunto, adiante-se apenas que essa reacção está ligada à estrutura da parede celular da bactéria. O que um antibiótico de largo espectro faz, de um modo muito genérico, é actuar sobre um vasto leque de bactérias pela associação de diversos princípios activos (os mais comuns associam cloranfenicol, eritromicina, estreptomicina e tetraciclinas). O segredo da eficácia destes agentes está no que se denomina por efeito potenciador que determinadas substâncias exercem na acção das outras. São úteis sobretudo quando não temos a certeza de qual a doença que afecta uma ave e podem mesmo dar-nos algum tempo para refazer o diagnóstico e actuar com mais eficácia com antibióticos específicos para aquele agente. O seu uso deve seguir escrupolosamente as indicações porque caso falhe as resistências surgem muito mais facilmente do que com antibióticos específicos. Além disso também trazem simultaneamente todos os efeitos secundários de cada um dos princípios isolados e actuam sobre um maior número de bactérias benéficas. Um antibiótico específico deve ser recomendado por testes de sensibilidade (antibiogramas) e outras técnicas que nem sempre são acessíveis e suficientemente rápidas para surtirem efeito. E já agora uma ressalva; que não se usem antibióticos para combater doenças virais (varíola aviar, PDV), pois poucos têm essa acção. Qualquer medicamento é na sua base um composto químico, mais ou menos potente, mais ou menos sintético, mais ou menos tolerado, mais ou menos tóxico… Não devemos administrar medicamentos sem saber qual a doença e qual o medicamento que usamos, em situações em que o fazemos porque "se não estiver doente ou não se curar, mal também não lhe faz…" Todos os seres dispôem de sistemas imunitários próprios. Em situações normais o equilíbrio entre hospedeiro e microorganismos (benéficos e prejudiciais) é muito débil mas mantém-se, e é isso que devemos procurar. Mesmo nós próprios temos alturas de maior e menor vigor físico e não é por um dia nos sentirmos menos activos que decidimos tomar dois ou três antibióticos. O caminho a seguir deve ser a selecção de indivíduos mais aptos e resistentes e não indivíduos débeis que necessitam de tratamentos e suplementações constantes. Pensemos todos (eu inclusivé) um pouco nos comos e porquês das coisas, porque é nisso que se evolui, para que trocando ideias e experiências todos beneficiem delas. Bibliografia: GUIDOBONO, L. ,1982, El Pavo MANETTI, Orlando, 1989, Cria del Faisan, 2ª Edicion, Ediciones Mundi-Prensa, Madrid. SCHOLTYSSEK, S.,1970, Manual de Avicultura Moderna, Editorial Acribia, Zaragoza
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